Quando pensamos em cuidado em saúde, é comum imaginar exames, medicamentos, procedimentos e relatórios bem preenchidos. Tudo aquilo que pode ser medido, registrado e protocolado.
Mas existe um cuidado essencial que quase nunca aparece no prontuário.
É o cuidado que acontece fora das linhas formais do sistema.
É a ligação feita no momento certo, que evita uma ida desnecessária ao hospital. Aquela conversa que acalma, orienta e devolve segurança a quem estava prestes a entrar em pânico. Muitas vezes, essa ligação não vira um procedimento — mas evita sofrimento, desgaste e risco.
Também é o tempo de escuta quando não há uma nova conduta técnica a ser adotada. Quando não existe um remédio diferente ou um exame a pedir, mas existe alguém que precisa ser ouvido. Escutar não é “não fazer nada”. Escutar é cuidar.
Há ainda a orientação repetida, dita mais de uma vez, com paciência. Porque compreender uma informação de saúde nem sempre é simples. O medo, o cansaço e a insegurança atrapalham. Repetir, explicar de outra forma e confirmar se foi entendido é parte fundamental do cuidado — mesmo que isso não apareça em nenhum registro formal.
E existe o acolhimento do medo, não apenas do sintoma. A dor emocional, a angústia e a incerteza raramente aparecem nos exames, mas estão presentes na experiência de quem adoece e de quem cuida. Quando o medo é acolhido, o cuidado se torna mais humano, mais seguro e mais eficaz.
Na telessaúde, esse tipo de cuidado ganha ainda mais valor. Estar disponível, acompanhar, orientar e escutar à distância não é frieza tecnológica. Pelo contrário: é uma forma de estar presente quando a pessoa mais precisa.
Nem tudo que cuidamos cabe em um prontuário.
Mas é esse cuidado invisível que sustenta tudo o que aparece nele.





